quinta-feira, 19 de novembro de 2009

O Overmundo como parâmetro de uma crítica digital?

(Ensaio publicado originalmente no livro coletivo 'Protocolos Críticos', 304 pags, São Paulo - Iluminuras: Itaú Cultural, 2008. ISBN: 9788573212976. O livro é resultado do projeto Rumos Literatura 2007/2008, conta com 16 ensaios sobre os mais diversos assuntos do campo literário - autores, temas em comum, crítica - e pode ser comprado na Livraria Saraiva variando o valor entre R$30,00 e R$35,00)

Ao curso dos grandes períodos históricos, juntamente com o modo de existência das comunidades humanas, modifica-se também seu modo de sentir e de perceber. A forma orgânica que a sensibilidade humana assume – o meio no qual ela se realiza – não depende apenas da natureza, mas também da história”.

Walter Benjamin,
em ‘A Obra de Arte na Época de sua Reprodutibilidade Técnica’.

Ninguém ampara o cavaleiro do mundo delirante

Só o título definitivo do presente ensaio ter passado de afirmação – quando minha idéia era apenas um projeto – para dúvida, já diz o bastante sobre as mistificações e desmistificações metodológicas de uma pesquisa. Um ponto de vista nos impulsiona para depois ser desconstruído. O título assertivo me jogaria num deslumbramento primeiro, que existia e me trouxe até aqui, mas que nesse momento associo a uma cordialidade que o próprio Overmundo precisa evitar. Por isso a dúvida. Seja como for, antes de adentrarmos no perigoso reino da vanguarda ou monarquia colaborativa, é preciso fazer um rápido apanhado e dizer – correndo o risco de ser ‘levyano¹’ – que a cada dia se torna mais difícil discorrer sobre a cultura contemporânea e seus desdobramentos, sem relacioná-la com o paralelo desenvolvimento tecnológico. Parece até papo repetido. Assim sendo, é importante registrarmos, até a título de testemunho, as possibilidades nascentes com a convergência digital – um fenômeno aclamado ora promissor, ora alienante – que vem, e é claro que vem, influindo em diversos patamares do cotidiano, na comunicação agora massiva, dual e personal, e em tudo que ainda chamamos de arte.

Além de tomarmos como irreversível, esse processo se insere numa era de fragmentos – chamada de pós-modernidade por uns e de modernidade cansada por outros. Temos profundos diálogos entre linguagens, hibridização de formas e a dispersão de antigas fronteiras. A convergência não está sozinha. Antes tínhamos as belas artes, agora falamos em novas artes: tecno-arte, bio-arte, arte-crime. Antes tínhamos as disciplinas e o anseio acadêmico de se estabelecer enquanto disciplina; agora a interdisciplinaridade rompe as fronteiras da academia. “Abra os olhos e verá a inevitável marca na história”, dizia uma das pichações de Rafael Augustaitiz ao apresentar sua conclusão de curso, através da intervenção e invasão do centro universitário em que estudava. De fato, a própria noção de fronteira e de um modus operandis específico, que diferenciava a gestação do artista das telas de outro das folhas, ou mesmo que formatava a transgressão do artista como distinta da de um criminoso se dilui nesse contexto, fazendo da literatura, imagem; do cinema, palavra; da pintura, performance. Isso reverbera no perfil do crítico – que pode insurgir sem ser artista, acadêmico ou jornalista – e nos perfis de críticas que se distanciam de um 'único' ideal: crítica genética, biográfica, impressionista, visual, estrutural e semiótica se misturam. Tudo é permitido. E não que não fosse antes: precisamos saber dosar o excesso de visibilidade do presente para que ele não se torne a perda de um passado, pontuando sempre que necessário o novo, mas sem nunca perder de vista a história. Essa mediação é imprescindível: mesmo jovens e com pouca lembrança já lemos Haroldo, Tarkovski e Glauber, vimos Truffaut, Warhol e Pasolini, dançamos com Jomard e admiramos a transmutação artística recorrente em Greenaway (ou deveria dizer Lynch?). Pois é, sabemos que Adão, Eva e um criacionismo inédito não estão entre nós.

Mas, deixando de lado ressalvas iniciais, se partimos da interseção e mútua-influência entre a cultura e a tecnologia, observaremos como a produção textual em circulação no ciberespaço vem sofrendo suas metamorfoses. Ainda discretas, mas metamorfoses. Pra começar, temos de levar em conta a possibilidade multiforme de expressão diante de uma tela – apesar das já multiformes não diante de uma tela – que reinstituem a ‘palavra’ escrita como apenas ‘uma’ ferramenta, não mais como ‘A’ ferramenta única e exclusiva de comunicação. Sequer podemos considerar que o uso da palavra na internet continua o mesmo, já que há uma liberdade quanto à publicação de ‘conteúdo’, expurgando assim qualquer censura ideológica ao teor e normativa ao tom: as abreviaturas, a oralidade, gírias unidas a academicismo e o caráter hiperpessoal dos blogs se destacam. É batata e não há como ter controle. Desde que aderimos ao vigésimo primeiro século, não é preciso ser especialista para postar em circulação global imagens, sons, vídeos, links, emoticons ou qualquer outro recurso. Somos, ao menos em tese, escritores/produtores e leitores/consumidores globais.

Isso nos leva a pensar que basta uma conexão e uma vontade de se expressar para que estejamos aptos a nos tornar artistas, críticos ou jornalistas. Mesmo em literatura essa ideia não é nova. Desde o século XVII, o homem – principalmente os homens de letras das colônias e províncias – já atentava para a importância da construção de prelos simplificados. O domínio completo da técnica de impressão de um livro, do início ao fim, tornava-o não só um ‘autor a mais’ lançado, mas seu próprio editor: um senhor de sua obra (EISENSTEIN, E; 1998; P. 120/121). Atualmente, com as tecnologias digitais, essa produção completa de conteúdo se associa diretamente ao processo da colaboração e ao da interatividade, constituindo portais coletivos, hierarquizados horizontalmente o quão o capitalismo tardio permite e se apropria. O conselho administrativo / financeiro continua, os editores se tornam raros e um mar de repórteres é constituído. Todos podem ser críticos (de boteco, mas críticos). A edição se torna sugestão. Já se fala, inclusive, num jornalismo open source que é claramente uma adequação empresarial aos novos tempos. Quem não muda sua organização é atropelado pelo trem e hoje a tendência é justamente o contrário do que se via na antiga lógica de emissão única para recepção múltipla: interfaces inteligentes que capacitem o usuário como produtor de opinião e informação diante de uma janela de opções midiáticas. A crítica da crítica ganha uma via oficial.

Outras fronteiras são colocadas em xeque, afinal esse aparente caráter autônomo do internauta, uma flanerie ligada a um ‘do it yourself’ tecnológico, não funciona apenas como uma liberdade nunca antes sentida, mas como uma tendência autofágica, que cresce enquanto se devora. Não só a percepção multiforme e a expressão multiforme se assumem como objeto (e ler isso numa folha de papel soa um tanto picareta), pois o ponto central do regime colaborativo – que nos lembra a cooperação científica do início da era Moderna, que uniu diferentes saberes e diferentes visões sobre saberes na constituição de grandes sistemas – se funda na heterogeneidade de premissas, no multiculturalismo ante o eurocentrismo e no abalo da distância essencial e simbólica entre o autor e o seu leitor. Ambos se tornam líquidos, invertem-se, colocam-se um no lugar do outro até se fundirem num só. Ultrapassa-se aqui a noção de complementaridade veiculada preponderantemente no interior do sistema literário, atingindo o nível da confusão entre os papéis. O autor escreve e o leitor escreve por cima.

O menos burocraticamente possível, temos a potencial leitura, antes dita passiva, agora descontínua, pronta a se converter numa escrita, numa resposta, numa mudança de foco. Isso não gera necessariamente uma escrita potencial, pois o excesso de opiniões termina por questionar a própria legitimidade da crítica como uma ferramenta de legitimação. Temos a crítica assumidamente hiperpessoal, mas temos a crítica anônima; temos a crítica que disponibiliza o objeto criticado, mas há uma epidemia de opiniões uniformes. Existem sim contradições. É um momento de diálogo e de ‘crise’, mas como nos ensina o mestre Lourival Holanda, melhor que seja de crise mesmo, porque a crise nega a estagnação do pensamento em favor da transformação. Nesse sentido que devemos seguir. Pelo bem ou pelo mal, a literatura e a crítica literária postas em debate na internet encontram uma diversidade de pontos de vista, uma divulgação que torna a visualização desvinculada do mainstream. Os conglomerados comerciais são substituídos por pessoas, as pautas unilaterais por propostas individuais; estatutos rígidos se quebram, abandonam seus postos antagônicos para se tornarem um tudo ao mesmo tempo aqui agora. Ponderar o que vale e o que não vale a pena em meio a esse pandemônio, em meio a essa ‘hiperinflação informacional’(SANTOS, A. L.; 2003, p. 36) e hiperinflação do descartável, é o nosso grande dilema. Vivemos no regime do excesso que conduz confusão para além do saber (CHARTIER, R.; 2002; p. 20).

Obviamente, nem tudo é novo. Benjamin² já observava essa nova conjunção entre autor e leitor há setenta anos e devemos tomar o seu exemplo, enquanto sintoma da modernidade na virada do século XIX para o XX, com os olhos apontados para frente. Em especial se levarmos em conta que toda mídia 'nova', e mesmo a internet se inclui nisso, traz consigo as bases de mídias anteriores, uma remediação, de forma que fica difícil encontrar na produção textual, e na crítica, uma característica que a diferencie por completo do que veio antes. Fiquei obcecado em fazê-lo até perceber que estava sendo precipitado. Muito do que é escrito na internet ainda é puro reaproveitamento do que era / é escrito nos meios impressos, podendo inclusive transitar de um a outro sem grandes perdas.

Pois é, o potencial multiforme ainda sofre do velho uniforme. Engraçado que essa seja uma recorrência mesmo com os mundos e fundos prometidos diariamente, mesmo tendo de refletir sobre as novas maneiras de fazer, transmitir e fixar significados (SILVERSTONE, R.; 2002), assim como sobre a diversidade de práticas de leitura e escrita. Não há limite de caracteres, mas os textos curtos e superficiais se multiplicam; podemos apontar diretamente toda intertextualidade, mas um recurso simples como os links são esquecidos ou desconsiderados pelos leitores. O hipertexto ainda é claudicante e só o tempo nos dirá até que ponto, de fato, seus elogios serão confirmados e até que ponto uma distinção entre a crítica digital e a crítica impressa poderá ser feita. Uma distinção discursiva, formal, social e utilitária. Trata-se de uma situação próxima de quando instituímos o regime do impresso diante do manuscrito no século XV. Os últimos livros copiados à mão e os primeiros saídos da prensa conservavam uma ampla semelhança, a tal ponto de não conseguirmos identificar as propriedades de um e de outro (EISENSTEIN, E; 1998; p. 37). Não se passa de uma conjuntura a outra sem transições. O novo não aflora do nada simplesmente. Vivemos nossa própria época de incunábulos, com tensões e passos em falso: o labirinto da hipermídia injeta liberdade, mas solapa antigas referências, antigas formas de localização, antigos apoios. E, nesse caso, é preciso se perder para aprender a navegar.

Dessa forma, a investigação do ensaio – e não se enganem, pois muito da reflexão foi posta aqui de forma aberta – se debruça sobre a crítica literária e seu comportamento nessa pretensa transição, nessa propensa metamorfose, tomando como objeto o site colaborativo Overmundo (www.overmundo.com.br). Criado em caráter experimental no final de 2005 e lançado oficialmente em março de 2006, o portal é concebido como uma grande encruzilhada reflexiva e cultural do Brasil de livres uso, acesso e construção. Percebi logo de cara que a abertura completa à participação, contraditoriamente, gerou uma restrição no consumo, dando um caráter de fórum ou coletivo a uma proposta que pretendia ir além. Se compararmos o número de acessos ao portal – lembrando de seu apelo nacional – com a versão online do Jornal do Commercio de Recife – cujo apelo é extremamente regional – vemos que o segundo tem 6 vezes mais usuários diários que o primeiro (dados de março de 2007). É como se o Overmundo só tivesse conseguido estabelecer intimidade profunda com entusiastas do estudo ou da feitura da cibercultura, o que é um gueto dentro do interesse pela cultura, deixando de lado uma gama enorme de potenciais 'overmanos' e 'overminas'. O debate – postulando a crítica enquanto debate – é quem perde, principalmente quando se institui uma cordialidade excessiva, um jogo de elogios vazios. Apesar de o nome ser comumente apontado como uma americanização, suas origens remetem ao poema de Murilo Mendes, Overmundo, presente no livro Poesia Liberdade, de 1947 (e escolhi quatro versos quase-mas-não-seqüenciais para usar como subtítulos). O objetivo deste ensaio não é me fechar num caso específico, o Overmundo, nascendo e morrendo num único ventre, do Overmundo, mas uma tentativa de postulá-lo como parâmetro para uma discussão maior. Mantendo sempre o direito à dúvida. E acho que essa idéia está clara desde o primeiro parágrafo.


Que anda, voa, está em toda a parte
No intuito de revelar o percurso, me registrei no Overmundo em agosto de 2006 e admito: entrei mais pela novidade que por consciência da iniciativa. Logo produzi contribuições, estabeleci contato com colaboradores, gostei do ambiente frutífero de trocas, da possibilidade multimidiática de construção textual, prosseguindo assim pelo ano seguinte até parar e seguir apenas como observador. Sem dúvida, a capacidade do site de agregar pessoas dos quatro cantos do país, de cidades fora do mapa midiático central, faz da colaboração conjugada à interatividade seu grande trunfo. E nesse caso, não se trata de delírio, mas de uma prática cotidiana. Ao mesmo tempo em que há dispersão, há uma noção de encruzilhada que reúne todas as idiossincrasias em um só lugar. A premissa de qualquer interessado poder se cadastrar e escrever sobre o que deseja – com enfoque na cultura e num debate sobre o que é cultura – ilumina um território antes invisível, algo que nenhum jornal, revista ou mesmo agência de notícias consegue ou se interessa em fazer. Num momento podemos ler uma crítica de Uruaçu (GO) sobre o livro De Longe Toda Serra é Azul, escrito por Fernando Schiavini, falando intimamente da questão indigenista no país e no momento seguinte, descobrir através de uma colaboração de Teresina (PI), a existência da revista De repente, fundada pelo poeta, violeiro e repentista Pedro Costa na tentativa de incentivar e divulgar a literatura de cordel. A distância entre os estados se torna a distância de um clique.

Quando os usuários assumem a postura de se debruçar sobre particularidades regionais, que lhe são mais íntimas, ou quando assumem uma pessoalidade imensa sobre temas distantes, o objetivo do Overmundo parece completo. A autoralidade ressurge e se torna múltipla, co-existente. Isso porque a própria estrutura do portal estimula o labirinto hipertextual: toda e qualquer contribuição aponta, numa coluna ao lado, para dezenas de outras contribuições ‘afins’ que por sua vez, apontam para outras dezenas de contribuições afins e assim por diante, a perder de vista. O risco (e aqui isso é um ganho) de se perder é imenso. A carcaça do site não pede uma revisão, afinal, dentro da proposta de cultura livre me parece bem esculpida, mas talvez a lógica de autogestão e de abertura para construção coletiva possa ser repensada. Se por um lado os organizadores tentam manter o Overmundo dentro da linha, por outro, uma série de problemas se acumulam. A proliferação de perfis fakes – que quebram não só a noção de autor, como a de quem é o 'sujeito' no ciberespaço – é apenas um deles: se qualquer pessoa pode se registrar e se tornar crítico do que quiser; temos de nos preparar para os que vão se registrar, encarnar qualquer persona e promover e/ou destruir qualquer artista. A abertura que alimenta o Overmundo é seu maior risco de sobrevivência.

Além disso, não podemos deixar de enxergar como, em termos quantitativos, o Overmundo reflete uma velha situação dos meios de comunicação tradicionais, principalmente no que diz respeito à visibilidade nacional dos eixos centrais em detrimento aos periféricos. Não se trata de uma repulsa ao eixo Rio-São Paulo. Longe disso. Dentro do próprio eixo central ressoam periferias e marginalidades temáticas, além dos temas não esgotados. Não podemos tomar a aparelhagem de poder entre hegemônico e subalterno de forma maniqueísta, mesmo que tenhamos em mente que muita visibilidade para um lado resulta em pouca visibilidade para outro. Tomemos, por exemplo, a contribuição “Escritor bom é escritor morto”, produzida por um usuário do Rio de Janeiro, a partir do seminário internacional Rumos Literatura em 2007. O autor resolveu discutir literatura contemporânea a partir de uma idéia de autor fundada no passado, questionando a nossa procura por 'grandes nomes' no contemporâneo. Não é um tema novo, invisível, nem nada; também não aborda uma particularidade apenas carioca, mas carrega uma discussão pertinente, em especial como metatexto do próprio espaço em que foi veiculada.

Por outro lado, percebi que a dispersão, enquanto apresentação do desconhecido, se confunde – e isso é uma estratégia velada – com serviços de quem os escreve. Isso cria uma situação ambígua, pois não sabemos até que ponto estamos diante de um pensamento sincero, crítico e relevante sobre um tema e até que ponto é apenas propaganda disfarçada. Um texto de destaque foi publicado no início de 2008, sobre o papel do agente literário, escrito por um agente literário que ao final coloca seu contato e se auto-proclama um dos únicos especialistas no país. Nenhum dos comentários tocou no ponto da autopromoção, que aos meus olhos se sobrepôs ao próprio tema, nem se perguntaram se nossa realidade pede esse papel no sistema. Pelo contrário, e isso é um dilema num espaço onde as pessoas deveriam estar atentas: os comentários assumiram sem constrangimentos um tom de clientes pretensos-escritores desesperadamente em busca de um agente literário para publicarem seus livros. A banalização desse tipo de atitude passa a confundir um espaço de debate cultural, com uma ampla agência de serviços nacionais. Talvez seja o caminho mais curto para tornar o Overmundo auto-sustentável – o que é importante – mas nesse caso, teríamos de falar menos em liberdade e mais em consumo.

Não é preciso muito para perceber como o portal bebe de iniciativas anteriores; os administradores fazem as honras da casa e deixam aberto ao público todos os créditos. Isso é um avanço quanto aos direitos autorais, fundamentando um sistema que tanto reaproveita, como se põe a disposição para ser reaproveitado. Tais diretrizes se oficializam ao substituir o tradicional plágio pelo compartilhamento consentido, algo que só se tornou uma realidade graças a distribuição pela licença Creative Commons³, assim como pela disponibilidade do código do sistema para download. Qualquer pessoa pode pegar a estrutura desenvolvida pelo site e desenvolver o seu próprio Overmundo ou outro site parecido com ele, desde que seja aberto e livre pelas mesmas licenças. O mercado ainda não sabe como lidar com iniciativas novas e vanguardistas, que tornam transparentes todo o abismo entre os interesses comerciais baseados no controle completo de conteúdo e a tendência contemporânea de liberdade desse mesmo conteúdo. O Overmundo não contribuiu para os modelos colaborativos da chamada Web 2.0 por seus recursos originais, mas por agregar ferramentas que antes eram utilizadas isoladamente.

Assim sendo, temos uma genealogia complexa: muitos dos conceitos empregados no site tomam emprestados recursos de desbravadores da nova internet, como a Wikipedia, o Slashdot e o Kuro5hin. Partindo do que o Overmundo fala sobre o Overmundo farei minhas considerações. Da Wikipedia é aproveitado o modelo de contribuições, mediante registro, donde o ‘overmano’ e ‘overmina’ têm o direito de escrever sobre o que desejar. Fala-se de uma linha editorial, mas quando se assume a dispersão, a editoria vira censura – uma reclamação que os administradores têm ouvido e lido nos últimos meses. Do Kuro5hin e do Slashdot, o Overmundo formata uma espécie de conselho coletivo, uma ágora de decisão, onde as contribuições entram no ar e são editadas a partir das sugestões dos próprios usuários cadastrados. Temos assim as filas de edição (48 horas) e de votação (48 horas para atingir um mínimo de votos), que filtra (filtra?) todo material postado. A hierarquização dos conteúdos do portal se equilibra entre o tempo de postagem e o número de votos recebidos.

A espinha dorsal do Overmundo é chamada de Overblog e funciona como um espaço publico de debate, onde os usuários podem lançar críticas, ensaios, entrevistas, apesar de que a quebra de fronteiras também atinge esses formatos e faz da entrevista, crítica; do ensaio, entrevista e da crítica; ensaio. Podemos pensar nas colaborações, e nos blogs internos, como um substituto direto das colunas dos meios impressos, onde o editor se torna um sugestor coletivo e onde o crítico se assume como senhor de todas as escolhas e responsável por todos os riscos. Infelizmente, no campo da literatura acontece – e não tanto no da música e do cinema – dos críticos pouco ou não se utilizam das ferramentas que o portal dispõe (imagens, áudio, vídeo e mesmo links). Algo que se fosse mais explorado poderia criar uma especificidade do material em relação ao suporte em que está sendo veiculado. Parece que os usuários não sabem como utilizar e dosar esses recursos dentro de seus conteúdos, menos ainda pensar conteúdos integrados num caráter multimidiático. O hipertexto pode funcionar como um avanço, mas em excesso pode causar uma fragmentação que termina não nos levando a canto, ou melhor, conhecimento algum.

Por isso é tão complicado falar num estatuto - se é que há a necessidade de um - que caracterize a crítica digital e que a diferencie do meio impresso. Não existe um formato pré-estabelecido para a crítica literária, ela precisa se misturar, tornar-se outra. O Overmundo pretende se afirmar como um laboratório multimídia para invenção de novas maneiras de divulgação e discussão da produção cultural, colocando numa posição de auto-questionamento a maneira como a própria crítica se estrutura e como se relaciona com a obra original. Um canal direto entre o crítico, autor e leitores se estabelece, estimulando as contra-argumentações diante do que foi escrito. Entretanto, a maioria dos comentários na seção de literatura não procura fomentar a discussão, mas elogiar o texto sem acrescentar muito. Isso cria um clima 'cordial demais', o que não só é maléfico para a crítica em si, como também menospreza o poder dos comentários. A interatividade e colaboração, enquanto potenciais, se esvaziam.

Dentro da interatividade, se finca a perversa lógica de usar o comentário como moeda de troca, algo que se associa diretamente com o fato da atuação dos usuários contar pontos para o karma, uma forma de distinguir, a partir da atuação e da produtividade, níveis diferentes de pesos nos votos dos usuários. É um tiro dado pela culatra: um mecanismo criado para estimular contribuições e tornar a hierarquização justa, se transformou no combustível de 'comentários vazios', numa busca exagerada por votos. Os termos ‘texto ótimo’ e ‘parabéns’ são majoritários. No caso de entrevistas, os usuários poderiam usar a oportunidade para continuarem o diálogo, afinal alguns dos entrevistados também são usuários, mas pelo contrário, o que acontece é uma volta ao recorrente “legal”, “parabéns pelo diálogo esclarecedor”, “ótima iniciativa”. Ergue-se uma necessidade de marcar presença, uma espécie de 'passei por aqui' que mais parece 'passei por aqui e talvez nem li'. A crítica de mão dupla, na verdade, pouco resiste (existe). Comentários do tipo “Lido, gostado e votado!” chegam a ser constrangedores, quando um mesmo usuário o repete em diferentes textos. Existe um movimento interno para acabar com essa cordialidade, mas ainda me parece um movimento isolado: a sensação maior é a de que ou se entra no jogo de elogios ou não se joga. A diversidade de pontos de vistas se perde; a provocação e a contestação viram artigo de luxo e até de xingamento por quem assume apenas o status de 'usuário cordial'. Não que a razão da crítica seja a distinção forçada de opiniões, afinal a polêmica pela polêmica tem o mesmo efeito do elogio pelo elogio.

Pensando assim, acredito que o karma é o grande sabotador do portal. Além do estímulo às avessas dado aos cordiais, essa atribulação instituiu uma espécie monarquia interna que passa invisível: no Overmundo, poucos têm um valor de voto alto e muitos permanecem com seus valores baixos. Sem contar que uma porcentagem pequena, 28 para ser mais exato, é paga por suas colaborações, enquanto se espera que todo o resto de usuários poste novos materiais espontaneamente. Há um dilema corporativo aqui. Soa como um surto de verticalização num pretenso mundo de horizontes. Em um espaço onde todos lutam pela legitimação da crítica, legitimação concedida pelos próprios usuários, uma parcela parece privilegiada, como se estivessem legitimados a priori. A crítica digital tem como maior caráter o dilema da legitimação, enraizada no dilema de quem concede e de quem recebe essa legitimação.


Observai sua armadura de penas

Parte da reflexão sobre o contemporâneo só se preocupa com o que acontece na ponta do desenvolvimento, no campo do ‘sempre-novo’, do agendado pela grande mídia, do último lançamento. Entretanto, essa ‘evolução’ – se é que podemos usar esse termo - não é tão idílica como já nos mostrou a história e se dá em camadas, de maneira desigual e não-linear. Estabelecendo um paralelo com o ciberespaço, percebemos uma severa desigualdade na usabilidade rotina dos usuários, a partir do letramento digital que possuem. O que traz reflexos na liberdade de direção dentro do ambiente virtual. Como vimos, há propostas de sites colaborativos que engatinham, mas as bordas e os centros continuam vivos, camuflados, mas vivos. Uma prova são os ‘portais-currais’ (UOL, Globo.com, Terra), espaços tidos como auto-suficientes para não nos perdermos no ‘mar de informação’, mas que, de fato, como aponta André Lemos “embora busquem agregar supostos conteúdos importantes, nos tiram, enquanto fenômeno hegemônico, a possibilidade da errância, da ciber-flânerie, nos transformando em surfers-bois, marcados pelo ferro do e-business’ (LEMOS, A.; online). Temos com a internet novas liberdades, novas formas de expressão, novas interações trans-territoriais, mas temos de aprender a lidar e a desviar das novas restrições e das formas – maquiadas – de controle. Se não o fizermos, as mudanças de suporte valem pouco.

Essa minha visão contrasta com o que afirma, por exemplo, a Lucia Santaella ao dizer que a internet, enquanto rede (e prefiro a noção de emaranhado), não “se constrói segundo princípios hierárquicos, mas como se uma grande teia na forma do globo envolvesse a terra inteira, sem bordas, nem centros” (SANTAELLA, L.; 2004, p. 38). O ciberespaço não pode ser resumido apenas como ruptura hipotética, afinal é além de ruptura, manutenção de continuidades e desigualdades pré-existentes. O contemporâneo, e já sabemos disso desde Santo Agostinho, se assume como uma convergência de distintos tempos em um só tempo, um espaço em que sistemas materiais e simbólicos convivem em diferentes estágios. É um pouco o que nos diz Gilles Deleuze, ao afirmar que não estamos lidando com “o curso empírico do tempo como sucessão de presentes”, mas “seu desdobramento constitutivo em presente que passa e passado que se conserva, a estrita contemporaneidade do presente com o passado que ele será, do passado com o presente que ele foi” (DELEUZE, G.; 2005, P. 325). O tempo e a tecnologia não compartilham de uma uniformidade espacial. Essa ressalva é importante, porque define a existência de níveis de letramento digital (MARCUSCHI, L. A.; 2005), co-existentes, influenciados pela intimidade e liberdade do navegador com o discurso eletrônico que produz e que consegue recusar. A própria Santaella é de grande valia ao definir diferentes tipos de navegadores (errante/novato, detetive/leigo e previdente/experto), a partir da profundidade de ações que conseguem realizar no ciberespaço. Ela aponta diferentes formas de navegação, muitas vezes influenciadas até pela personalidade do navegador, que pode diferenciá-lo ou encaminhá-lo para a corrente.

É arriscado refletir sobre fenômenos culturais recentes, mas é preciso. Afinal, muito da não-reflexão é causada por um comodismo de deixar os processos se petrificarem, uma lógica que se funda na força do 'hábito' em ocultar o vigor das mudanças. Há uma clara falta de perspicácia na postura diante de um fenômeno recente, do qual não conseguimos vislumbrar todas as saídas e conseqüências, pois não temos o tempo decorrido que nos conforta e nos enche de segurança. Por outro lado, penso em seguir um caminho distinto de autores consagrados como a Lucia Santaella e o Pierre Lévy, mesmo que ambos discorram sobre o ciberespaço. Ambos tendem se fundamentar a partir da idéia de ‘potencialidade’, o que me parece muito tentador, mas, por outro lado, também me parece deslumbrado demais. Será preciso cobrar da ‘potencialidade’, questionar até onde o potencial inserido pela colaboração vai e até onde ele limita a si mesmo. Precisamos ser claros e não cair na dualidade, onde de um lado a internet emana como solução de todos os males e de outro, como o centro vital de simulacros e cataclismas. Para além das distopias e utopias da cibercultura, nossas pesquisas precisam adotar uma sobriedade.


E ouve seu grito eletrônico.

O Overmundo tem de superar o karma do consenso vazio ou a iniciativa terminará caindo num caminho sem volta: ou o da censura editorial dos jornais, ou da superficialidade geralmente acusada aos blogs. É preciso encontrar um meio-termo, se desvencilhar dos caminhos preconcebidos, da quantidade-limite de palavras e termos e da falsa convergência inconvergente. Trata-se de uma busca por um anti-formato - que nem precisa ser tão ‘anti’ assim - mas que nos compreenda, não nos rotule e nos posicione enquanto tal. As expressões são multimidiáticas e precisam revelar a mescla de linguagens dos constructos discursivos que são. Também acredito que não precisamos nos apegar aos que pretendem explicar a arte em critérios científicos e rígidos ou, por outro lado, meramente descrever e contar sinopses. A própria arte não pede essa domesticação: o que caracteriza o trabalho artístico é a impossibilidade de redução do enigma criativo.

Assim sendo, o perfil crítico impresso, televisivo, radiofônico nos soa ultrapassado, enquanto não desperta para uma produção de sentidos próxima de um artista transmídia e livre. De fato, estamos distantes da lógica de guia de consumo ou do agendamento imposto à crítica tradicional. Acredito no compartilhamento como forma de democratização ao acesso de obras e informações e a política contrária sempre marginalizou grande parcela da população. Não se pode ficar omisso quanto a isso. O Overmundo não deve trabalhar pelo consenso, mas pelo dissenso, pelo debate das idéias que se diferenciam, se confrontam, se devoram; pela substituição do determinante pelo ambíguo ou pelo ponto de vista duplo, múltiplo. Essa era a premissa valorosa e ela está se esvaziando. É preciso tornar toda e qualquer conclusão apenas o mote de uma nova e nova discussão. Todos os artistas e metidos a intelectuais – resgatando o sentido não pejorativo da palavra - estão convidados. Nem tudo é novo e ideal, todos sabem, mas é preciso continuar mesmo assim.


NOTAS

¹ Referência ao teórico Pierre Lévy.

² “Durante séculos, um pequeno número de escritores encontrava-se diante de vários milhares de leitores. No fim do século passado, a situação se modificou. Com a ampliação da imprensa, que colocava à disposição do público órgãos sempre novos, políticos, religiosos, científicos, profissionais, regionais, um número crescente de leitores passou-se – inicialmente de modo ocasional – para o lado dos escritores. [...] Entre o autor e o público, conseqüentemente, a diferença está em vias de se tornar cada vez menos fundamental. Ela é apenas funcional, podendo variar segundo as circunstâncias. A competência literária não mais repousa sobre uma formação especializada, mas sobre uma multiplicidade de técnicas, forjando-se assim um bem comum”. (BENJAMIN, Walter; 1985, p. 227/228)

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BIBLIOGRAFIA

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SILVERSTONE, Roger. Por que estudar a mídia?, tradução Milton C. Mota. São Paulo: Loyola, 2002. (1999).

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Amante

Desde que começou a escrever sobre cinema, pensa na crítica como uma arte do encontro, do encontro fortuito, não agendado, o que traduz um caráter literário de crônica em praticamente tudo o que escreve, pois sempre termina misturando quem era no sentindo amplo e quem estava sendo no sentido micro para melhor entender dentro da cabeça o filme com o qual se deparou. De fato, nada contra, mas ele nunca foi muito da turma da terapia, era pobre, morava longe, não tinha grana, daí jamais quis se autoinstituir como terapeuta que coloca uma obra de arte no divã e a analisa clinicamente. Se pudesse escolher uma dimensão, escolheria a do amante sempre confuso sobre a duração da noite de prazer, sem saber se o encontro continuará encontro por semanas, anos, décadas ou se, sendo o último, cessará em poucas horas. Não hesita: se entrega, ama, inventa e mente. No outro dia, se for o caso, veste a roupa e vai embora.

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Hedgehog in the Fog, de Yuri Norshten (Rússia, 1975)

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Diacronia / Sincronia

Tenho a tendência de idealizar os meus dias como crônicas, descobrindo em alguma brecha das vinte e quatro horas, um lampejo transcendental que possa carregar comigo para o resto da semana, do ano, quiça da vida. É como se partisse do arbitrário princípio de que os dias futuros são, em parte, constituídos de milésimos de segundo colhidos no percorrer dos dias passados. Por isso, toda vez que me arrisco a planejar os próximos passos, que me lanço num plano de ação a médio prazo, logo me deixo invadir por um sentimento nostálgico: leio posts antigos, descubro blogs abandonados, vejo filmes de infância, relembro bons momentos, mando emails saudosos, volto aos lugares que não frequento mais. Parece um mero tique errante, mas só assim me dou conta como tudo isso me pertence, cada fagulha, fragmento e fratura; redescubro quem eu 'era' / 'sou' 'antes de' / 'sem' conhecer cicrano ou beltrano, mais ou menos o que fala o Henri Lefebvre, em um de seus ensaios sobre o cotidiano e tomando para o lado pessoal, ao afirmar que "a história de um dia engloba a do mundo e a da sociedade". Pensar na vida anterior englobada pelo dia presente e pensar os dias como crônicas a serem descobertas por um olho não dormente, me desperta para um aprendizado eficaz: o de recortar momentos insignificantes para torná-los parábolas existenciais. Vinte quatro horas, vinte quatro anos, vinte e quatro quadros e a experiência me parece dizer que sempre há de chegar o momento em que os milésimos de segundo mostrarão sua exatidão cirúrgica.

Pizza

Daí dia desses fui no centro comprar um livro e um sapato, tava na caxangá dirigindo de boa, quando não mais que de repente passaram umas seis ambulâncias, uma atrás da outra, na maior velocidade, cortando todo mundo, eu, a titia lesma da frente, o cdu várzea lotado. Ambulância sempre me dá uma sensação não só de que a cidade inexplicavelmente acelerou e tudo precisa ser mais rápido, como gera uma maldita internalização de que o caos reina - só que sem raposa, ejaculação de sangue e clitóris da Charlotte Gainsbourg cortado. ok, daí chego no derby, ali na ponte antes da praça, maior trânsito, aquela vibe 'tem-um-acidente-ali-na-frente-e-todo-mundo-ta-parando-pra-olhar', o pessoal do ônibus lotado se espremendo na janela e a fofoca rolando solta. Nessa hora sempre surgem milhares de teorias estúpidas. Passo o cruzamento, tem caídos uma moto dessas de entrega a domicílio com a caixa estourada e um motoqueiro, nenhuma ambulância por perto, um galo da madrugada de pessoas rodeando o coitado no chão. Minha última imagem foi a dele mexendo a perna. Continuei meu caminho, segui minha vida, só que logo na frente, outro trânsito, fiquei puto, xinguei geral, adoro gastar toda minha energia negativa enquanto estou no volante. Daí quando finalmente chego na causa dos carros lentos, tem uma saveiro branca parada e um carro de polícia ao lado, a maior discussão entre o motorista da saveiro e os policiais e o povo do ônibus se espremendo gritando coisas que não conseguia entender. Foi então que passei a saveiro e me senti a pessoa mais feliz do mundo, não porque o trânsito tava liberado na minha frente, mas porque olhei pra trás e vi a cena do dia: o vidro da saveiro estava todo rachado e sobre um amassado central, tinha uma pizza portuguesa toda espragatada. Merecia muito uma foto. Juro que fiquei pensando no cara que pediu a pizza, cogitei até a possibilidade dele ligar reclamando que passou de vinte minutos e que agora deveria ganhar uma pizza de graça. Olha só o que o consumo faz com a gente. Enfim, entrei na conde da boa vista com a sensação de que era possível entender o mundo olhando o conjunto direitinho: uma moto sozinha não fazia sentido, uma saveiro sozinha com uma pizza no vidro também não. Quer dizer, nem tudo fez sentido, afinal, onde foram parar todas as ambulâncias que passaram por mim na caxangá? Parece nada a ver, mas acho que a resposta pode estar escondida naquele seriado, O Reino, do Lars Von Trier.

Nascimento em Paradoxo

Diferentemente do que muitos supõe e apesar de fruto da corrida pelo progresso, de seu caráter de espetáculo fortalecido na captura do imaginário, o cinema não nasceu com sua essência costurada por um viés ostensivamente comercial, visão que nos é tão próxima que nos cega pela força do hábito; não nasceu sendo consumido no seio da elite burguesa que, na segunda metade do século XIX, tinha nos livros, folhetins, teatros, concertos musicais, clubes de campo e esportes seu divertimento seguro e refinado. Digamos que foi um quase contrário para também não cair no maniqueísmo. O cinema nasceu sob a promessa de seu fim, especialmente por não conseguir se fazer vislumbrar, enquanto utilidade científica ou econômica, nos olhos de seus pioneiros – sujeitos-inventores cujos objetivos pragmáticos estavam em consonância com as diretrizes da racionalidade industrial de uma sociedade capitalista em expansão.

De fato, o cinema nasceu como um pêndulo entre a ciência e o entretenimento: pausando, em seu viés dispositivo, como instrumento técnico que buscava entender o 'tempo' contido no 'movimento' e as características do 'movimento' em si, e assim o foram os experimentos fotográficos com animais e homens de Marey, Muybridge e Friese-Greene; e pausando, em seu viés produto a ser consumido, como entretenimento das classes mais baixas, se implantando inicialmente nos guetos de imigrantes, abrindo espaço entre os cabarés, botequins e sinucas, aparecendo na forma de passagens curtas e pornográficas apreciadas através dos nickelodeons e penny arcades de bairros operários. Nada mais plausível que o cinema, cujo entendimento se dava estritamente pela veia imagética, se tornasse diversão de imigrantes que não falavam e/ou entendiam bem o inglês. A sétima arte ainda não era arte, nem ciência ou assim acreditavam.

Os antecedentes técnico-científicos remontam entre duas linhas de pesquisa que aglutinam uma série de campos do conhecimento: por um lado tínhamos “a técnica fotográfica, a partir de conhecimentos ópticos e químicos”, e por outro “o estudo do processo da visão, especialmente de mecanismos físico-fisiológicos” (XAVIER: 1979, P. 20). É a partir da importância desta segunda linha que o norte-americano Jonathan Crary aponta os antecedentes filosóficos, minimizando a invenção do cinematógrafo como apenas uma evolução sucessiva de aparatos, colocando-a de maneira contextual como uma consolidação descontínua de novos moldes e modelos de visão. Encontramos não apenas novos procedimentos de individualização do ser humano, como um acumulado de descobertas, a perspectiva, a persistência da retina, a vista unifocal, além de uma trajetória existencial de verdades questionadas. É como viajante deste caminho que se ergue o observador moderno, indivíduo que coloca em xeque as propriedades do próprio olho diante de desconhecidas dimensões de imagens técnicas passíveis de serem esteticamente experienciadas.

O passo seguinte seria brincar com a duplicação / falsificação do real, mas não do real registrado no instante, mas do real inscrito no tempo através do movimento, da ampliação na relação do ser com o estar no mundo. Coroa-se distintos estatutos da percepção através de equipamentos, cinematógrafo (câmera + projetor) e cinetoscópio, que na última década do século XIX, eram consumidos por boa parte da massa trabalhadora - primeiros espectadores e vigas humanas da construção da sociedade moderna, detentores de uma jornada exorbitante de mais de onze horas de trabalho, batendo ponto às seis/sete da manhã e saindo às seis/sete da noite, quase não tendo a oportunidade de "apreciar a luz do sol fora do serviço” (SKYLAR, R: 1975, p. 14). Foi sob o estigma desta escuridão que o cinema nasceu (adoro um drama marxista). Em 1897, em Paris, um lugar de exibição pegou fogo depois da explosão de uma lâmpada, o que causou a morte de quase duzentas pessoas. O incidente repercutiu nas elites que constataram o cinematógrafo como um passatempo perigoso.

Quando se fala em primórdios do cinema existe uma velha discussão da herança que os irmãos Lumierre e que o ilusionista George Meliès deixaram para o desenvolvimento da estética cinematográfica, os primeiros sendo apontados como precursores da representação documental, e o segundo como responsável pelo enveredamento da película no mundo da ficção e do fantástico. Há, entretanto, entre outras, uma terceira figura essencial, Thomas Edison, especialmente se quisermos entender a maneira pelo qual o sistema cinematográfico passou de inarticulado ao status de mercado. Reconhecido não só por sua capacidade inventiva, mas por ser criador de entretenimento e empresário de mentalidade imperialista, Edison conseguiu reunir durante sua vida a incrível marca de mais de 1.903 patentes registradas em seu nome – algumas das quais que não foram invenções suas (como o próprio cinetoscópio, criado por um de seus assistentes, William Dickson). Isso para não falar das invenções não inventadas que funcionavam apenas como especulação para desestimular seus competidores ou mesmo das mudanças de data para falsear um pioneirismo. Chegou a anunciar o cinema sonoro antes da virada do século XX.

No campo cinematográfico sua influência foi imensa, inicialmente por ser dono de uma empresa e colocar seus inventores contratados em contato com Muybridge e Marey, e conseguindo criar o cinetógrafo, câmera, e o cinetoscópio, projetor que era capaz de lançar imagens em movimento em duração máxima de 90 segundos. Edison era, no final do século XIX, para além de inventor, um empresário do ramo das invenções. De fato, seus aparatos de registro e projeção não eram considerados de ponta, o cinematógrafo dos irmãos Lumierre eram superiores na qualidade do registro e no tempo possível de exibição (conseguiam realizar projeções de uma bobina de quinze minutos). Entretanto Edison é reconhecidamente responsável pela organização da produção de seus cinetoscópios e da criação de uma larga rede de distribuição em todo país (EUA). Em abril de 1884, os primeiros 10 kinetoscópios foram usados com propósitos comerciais e até 1900, data em que já estavam completamente ultrapassados, atingiram a marca de 1000. Apenas seis destes restaram até hoje.

Quando o cinetoscópio não conseguiu mais expandir mercado, Edison lançou o vitascópio, uma invenção britânica com a qual teve contato numa de suas viagens pela Europa, mas que nos Estados Unidos registrou em seu nome. No início do século XX, Thomas Edison era famoso por solicitar e revisar pedidos de patentes sucessivamente negados de modelos de captação e projeção até serem aceitos. Pegava a invenção de estrangeiros, mudava pouca coisa e registrava como invenção sua. Aí que vem sua importância. O passo seguinte era entrar, apoiado por tribunais federais, com processos judiciais contra seus competidores norte-americanos. Desta forma, em 1907, praticamente todos os envolvidos no ramo cinematográfico estavam subordinados a sua empresa, tendo que pagar por qualquer uso de câmeras e projetores. Há registros de produtores independentes que, sozinhos, foram processados 289 vezes. Além disso, a Edison Trust pegava filmes de Meliès e outros cineastas europeus e copiava sem constrangimento, afinal a lei de direitos autorais para filmes só entrou em vigor em 1912 - ano em que Edison perdeu o apoio dos tribunais e terminou abandonando o ramo do cinema depois de um incêndio em sua empresa.

Se em meados da primeira década do século XX, quando as primeiras salas clandestinas surgiram, a polícia invadia os cinemas por conta da imoralidade do que era projetado, por um sentido moral, passaram a censurar e confiscar, para além da moral, também pelo não pagamento da patente ao suposto inventor dos equipamentos. Thomas Edison viu seus esforços empresariais se concretizaram em dezembro de 1908, com a criação da Motion Pictures Patents Company, que agrupava todas as grandes empresas do ramo cinematográfico tomando como eixo a sua. Pela primeira vez, se consolida o modelo de negócios que unia de maneira monopolista a produção, distribuição e exibição de filmes em praticamente todo país. Edison queria o domínio total da cinematografia e chegou a fazer incursões para outros países, seu vitascópio, no Brasil, era conhecido como cinematógrafo Edison e foi bastante popular em feiras e circos do Rio de Janeiro.

Em Nova York, os que conseguiam se firmar como independentes usavam de qualquer galpão ou armazém como lugar de exibição, entretanto, além do receio das batidas policiais, tinham dificuldade de conseguir filmes, precisavam contactar independentes de outras cidades, especialmente Chicago, passaram a também produzir filmes, teriam que pagar patente pela câmera, chegaram a tentar usar câmeras européias para conseguir fugir da fiscalização, mas ficaram insatisfeitos com os resultados. O esquema era complicado e arriscado e fazia com que boa parte dos independentes desistissem da aventura. Não todos. Uma solução encontrada por um grupo de empresários foi procurar locações distantes – e nessa busca, a Califórnia se mostrou particularmente atraente por ter sol o ano inteiro, sem as instabilidades climáticas de Cuba e da Flórida, além de possuir próximos diferentes possibilidades de locação: praias, desertos, montanhas.

Além disso, Los Angeles eram muito conhecida como uma cidade que recebia muitos trabalhadores imigrantes, não sindicalizados e que terminavam se caracterizando como mão-de-obra barata. É nesse contexto de domínio e de uma ampla visão econômica do cinema que, entre 1910 e 1913, Hollywood, um distrito dentro de Los Angeles, passou primeiro a ser usado como locação até ser escolhida como destino definitivo. Os estúdios foram fundados basicamente por um grupo formado por vários judeus provindos da Europa Oriental, cansados da disseminação do poder de fogo do monopólio de Edison, escolhendo também a costa oeste porque a influência do Truste era menor. Entre eles, William Fox; os irmãos Harry, Albert, Sam e Jack Warner; Marcus Loew, Louis B. Mayer e Samuel Goldwyn. Os sobrenomes não são mera coincidência. Então, se em Nova York eram famosos por resistirem à opressão das patentes, realizarem sessões clandestinas, lutarem contra o monopólio, se fugiram como independentes, chegaram em Los Angeles não para continuarem a resistência contra o truste, mas para fundar um novo truste ainda mais poderoso. Assim nascia Hollywood.

Se a repressão funcionou para consolidar a maior indústria cinematográfica da história, também foi através da repressão enquanto ferramenta que ela conseguiu se expandir mundialmente. A primeira preocupação dos empresários era a de elevar o cinema para a classe média, sem perder a já conquistada classe operária, apostando na diversidade de produtos por classe e investindo, seguindo os passos do teatro, na construção de estrelas. A primeira guerra mundial foi essencial para a expansão dos filmes norte-americanos, não só porque o presidente Woodrow Wilson já antevia que ‘onde chegassem os filmes norte-americanos, chegaria a cultura norte-americana’, mas especialmente porque a guerra rompeu os elos entre a Europa e seus mercados, deixando o caminho mais favorável aos Estados unidos. A criação da Motion Pictures Producers and Distributors of America, em 1922, consolidou juridicamente para Hollywood um passo dado por Edison em 1907, se firmando como principal responsável pelo modelo de negócios vinculado ao poder das grandes produtoras e de um amplo controle norte-americano do mercado de distribuição mundial.

Ufa, que texto mais sério.

Dados

Só para termos uma ideia da situação, no Brasil, segundo dados do IBGE, apenas 8,7% da totalidade de municípios possuem salas de exibição em funcionamento. Se considerarmos apenas os municípios até 20 mil habitantes, que representam 75% do total, esse número é reduzido a 2%. Comparativamente, temos uma sala de cinema para cada 85 mil habitantes, enquanto que os argentinos têm uma para cada 35 mil e os EUA ostentam uma sala para cada 8 mil. Além disso, para termos uma dimensão do que passa nas 2.078 salas de exibição do país (1.244 apenas na região sudeste), segundo o relatório semestral do Observatório Brasileiro do Cinema e do Audiovisual, de janeiro a julho de 2009, o cinema norte-americano representou 40% das obras lançadas, o que se concretiza, no entanto, em 82,79% das cópias em circulação. Resultado: 80,56% da ocupação das salas, 75,68% do público pagante e 75,98% da renda são de filmes dos Estados Unidos. Por fim, vale ressaltar que nesse período foram exibidos 382 filmes no país, entretanto, os 12 títulos lançados em mais de 250 salas simultaneamente, os blockbusters, representam 50% do montante do público que foi ao cinema.

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

não.

não.

não viver como o pombo que se alimenta de migalhas de pão, soltas diariamente por dedos rugosos que jamais irão acariciá-lo; dedos que continuam a mórbida jornada de alimentação para que a ave permaneça por perto, decorativa e passional, ao ponto de não sentir vontade de voar.

não.

não viver como o coelho que se sente na obrigação de ajudar o caçador ferido e que logo se culpa por não ser capaz de trazer um peixe, como fez o urso, ou de trazer um tatu, como fez a raposa, se lançando à fogueira como única forma possível de contribuir e superar sua condição.

não.

Cafuçu

Um amigo me disse que tinha um amigo em Manaus traduzindo o diário, escrito entre 1903 e 1914, de Roger Casement, um irlandês, que veio ao Brasil como diplomata do Reino Unido, e que entre as palavras aportugaysadas que usava, uma das mais recorrentes era 'cafuçu'. E usava para indicar os seus amantes prediletos: homens pobres, rústicos e de corpos torneados que apesar da pouca 'cultura' sabiam bem...

domingo, 27 de setembro de 2009

Filmes de Infância: A Fortaleza (Austrália, 1986), de Arch Nicholson

Nem lembro exatamente com quantos anos assisti a esse filme, menos de dez com certeza, mas foi por muito tempo uma das produções tela quente / sessão da tarde / cinema em casa que mais me causou medo durante a infância. A sinopse é bem simples, imaginem a novela Carrosel, só que ao invés do lenga lenga habitual, imaginem a professora Helena e a turma sendo sequestrada por quatro homens armados com escopetas, cada qual com uma máscara que supostamente deveria servir para animação de festinhas de criança: papai noel, gato, rato e pato. No caminho para o cativeiro os sequestradores sugerem que vão estuprar a professora, depois comentam que tem uma aluna já 'crescida' que daria uma boa diversão, ameaçam matar o menor deles se um outro que fugiu não voltar ao furgão. A violência é sugerida o tempo todo. Lembro muito da cena de atravessar o lago, quando uma menina se desespera, agarra no pescoço da professora e quase que as duas se afogam, e do momento em que os pirralhas, que tem idades bem diferentes, conseguem fugir, chegam numa casa e pedem ajuda, só que a casa havia sido invadida pelos mascarados. Termina que o papai noel mata o velhinho dono da residência na frente das crianças com um belo tiro que o atravessa e quebra o aquário atrás dele. É foda que quase não vemos o rosto dos sequestradores durante os 85 minutos, porque mesmo quando eles tiram as máscaras, a câmera começa a enquadrá-los cortando a cabeça. A segunda parte se passa praticamente dentro de uma caverna, as crianças meio que se rebelam, começam, guiados pela professora, a se comportarem como caçadores / guerreiros tribais. O final é bem chocante, porque faz uma espécie de apologia ao crime, a matar como solução única quando se encontra ameaçado, e isso é posto como se fosse a 'lição do dia' dos alunos. Quem se interessar, dublado tosco, acho as vozes dos sequestradores o terror, meio editado, mas faz parte do espírito televisão da coisa. Pros sem paciência, recomendo o início e o fim. rá














À Deriva (Brasil, 2009), de Heitor Dhália


Não tenho o hábito de sair do cinema e ir direto para o computador escrever sobre o filme que acabei de assistir. Geralmente dou uma respirada, fico um tempo sozinho, fumo um cigarro, olho a cidade, reclamo do trânsito, decido se consigo estabelecer uma relação de quem sou com a obra com a qual me deparei, ponho algumas palavras no rascunho e, por fim, desisto sem peso algum na consciência. Óbvio que o contrário também acontece dependendo do impulso: aconteceu em 2007, quando fui assistir O Cheiro do Ralo, e aconteceu recentemente quando saí da sessão de À Deriva, ambas produções do cineasta brasileiro Heitor Dhália. Terminei não publicando as palavras do último por pura falta de tempo, mestrado, curadoria, procrastinação, mas ainda assim resolvi voltar aqui, dar uma de oroboro e morder o próprio rabo, porque achei, de modo geral, que a crítica 'cabeça' da internet do meu Brasil foi muito cruel com o filme - e constatando que essa esfera já não é tão desprovida de consequências, que a cada dia tende a influenciar mais olhares, estabelecer os diretores-cabeças que sim e os diretores que não, e interferir justamente no percurso cinéfilo que supostamente deveria ser autônomo. De fato, os críticos nada têm a ver com isso. Seus leitores sim: passam a tomar a opinião dos outros como suas antes mesmo de traçarem o percurso básico: assistirem ao filme. Admito, me incomoda tanta pré-disposição e isso também não é a medida utópica de que sejamos verdes na era da informação.

A começar, fui assistir À Deriva partindo da curiosidade em continuar acompanhando uma trajetória obra a obra e, de fato, temendo encontrar um diretor absorvido pela lógica de filmes-mundo, ou seja, dos filmes que já não possuem referência geográfica alguma e que mantém uma relação de produção internacional ao ponto de serem consumidos quase sem ruídos idiossincráticos para além-mar. Heitor Dhália fez algo longe disso: e o fez apesar de ter o risco em mãos, de tomar o âmbito familiar como objeto, tema universal por excelência, e de já saber, como um garoto não ingênuo, da natural repercussão que o filme tomaria fora do país por conta do esquema de produção, financiado pela Universal Pictures, e dos atores Vincent Cassel e Camille Belle. Conseguiu materializar, talvez, o que Krzysztof Kieslowski disse uma vez quando questionado sobre ir para França e perder a vertente do cinema nacional de seu país, a Polônia: não faço filmes poloneses, faço filmes como dor de garganta e dor de garganta as pessoas têm no mundo inteiro. Só que o significado da dor e da garganta se modifica a cada canto.

Particularmente, vejo À Deriva e penso nos coqueiros tortos pela ação do vento, nos objetos da casa de praia, nas cadeiras confortáveis para abrigar o corpo molhado, nas redes e sofás, nas roupas, na pouca roupa e em colocar a mesa no jardim. Vejo tudo isso através de uma fotografia que coloca a luz do dia como uma luz etérea, que pende entre a coloração do nascer e do pôr do sol, despertando um caráter não urbano e nostálgico que nos remete ao 'ser criança' durante a década de oitenta. E o que falar das longas temporadas na praia, das amizades e brigas monçônicas que não duram mais que um verão, de passar o dia inteiro na piscina, comer churrasco, de todo esse universo que nos distancia da arquitetura do cotidiano. Ainda mais quando somos crianças e estamos apenas aprendendo a se portar dentro do cotidiano. Há um pressuposto de paraíso idealizado, mas que habitado por homens, nos conduz, em fraturas, de volta ao mundano.

Nesse cenário, acompanhamos, através dos sentimentos da filha mais velha, a adolescente Filipa, a putrefação do relacionamento de um casal, que além de Filipa, possui dois outros filhos. Antes de mais nada, li algumas críticas que colocaram a interpretação de Laura Neiva quase como se a garota fosse uma tábua lisa sem expressão. Discordo e acho até meio cruel, não fazendo apologia à condescendência, mas porque gosto muito do tom da personagem: somos obrigados a seguir o mundo por seus olhos, olhos truncados, mas para nós, espectadores, não parece ser uma tarefa tão fácil, afinal ela empreende uma estranheza em sua personagem, que não nos aproxima dela, pelo contrário, nos deixa confusos porque nem sempre entendemos suas motivações. A dubiedade de tal comportamento se encaixa perfeitamente no corpo de menina-mulher, na encruzilhada de ser vista como criança graças a cegueira do amor paterno e vista como mulher sensual pelos impulsos dos rapazolas da rua. Filipa não se decide em qual caminho seguir, brinca e sente desejo. A cena final é marcante, spoiler, com ela saindo do barco onde teve sua primeira experiência sexual, sob os olhos do homem que a possuiu, e encontrando o pai, que pega a filha nos braços e a lava na água do mar. É de um poder simbólico imenso. Há um confronto natural entre o conforto dos braços do pai e a curiosidade pela errância juvenil.

Dentro disto, só acho que a escolha de Cauã Reymond para o elenco estremeceu um pouco a seriedade do filme(ao contrário de Débora Bloch que só fortaleceu), porque, sinceramente, ficou parecendo uma viagem de princesa para Laura Neiva: ela, uma desconheida; ele, o galã do momento. Devia ter achado o garanhão no orkut, assim como fez com a garota. Por sinal, Laura Neiva me ganhou a priori por, algo já recorrente no cinema brasileiro contemporâneo, risco e força de usar não-atores como atores pela primeira vez, tirando de seus olhos a grandeza de quem nunca passou por aquilo, algo que não consigo desvencilhar historicamente de Robert Bresson, fazendo com que Pickpocket (França, 1959) bata forte na cabeça. De certa forma, estamos sempre vivendo pela primeira vez, fazendo com que esta escolha, de modo geral, estimule os espectadores a buscarem em suas lembranças uma vida que se faz de momentos: a respiração presa e o frio na barriga de ver/ouvir seus pais brigarem e o peso, fascínio e medo que uma arma nas mãos pode dar. Outro filme que me invadiu durante À Deriva, foi O Mensageiro do Diabo (EUA, 1955), de Charles Laughton, por sustentar o terror basicamente ao brincar com o medo, universal, de perder os pais, a família, medo que lhe acompanha até o dia que acontece, mas que quando criança pode vir a ser uma espécie de quintessência do temor. Durante a infância, escutamos histórias distantes que aconteceram com alguém que não conhecemos e tememos, em urgência, coração disparado, que elas aconteçam conosco no próximo passo.

O filme recria cenas que são fortes para o imaginário de qualquer pessoa, afinal todos vivemos a instância filho, e se por um lado existem situações-limite que nos prendem o ar pela sua dimensão megalomaníaca, vem na cabeça filmes-catástrofe, Heitor se usa de momentos intimistas em dimensão micro que geram a mesma reação. O que para uma criança pode ser mais assustador que ver a mãe chorando? O que pode ser mais terrível que acordar e encontrar a mãe bêbada desmaida no chão da sala? O que pode ser mais incômodo que descobrir que o pai trai a mãe? Dada a recorrência em novelas, e o filme é sim um belo dum melodrama, tais situações podem parecer repetitivas e esvaziadas de fulgor, mas acredito que o cineasta conseguiu o grande feito de desbanalizá-las graças a um tratamento de especial sensibilidade. Enquanto nas narrativas fáceis, tais situações são sensacionalizadas, em À Deriva são simplesmente mostradas, parecendo recolocá-las em seu devido lugar do cotidiano, rememorando a força que existe instrinsecamente. Há uma emersão de memória violenta, fazendo de uma suposta história banal de traição, um drama pesado graças ao olhar pessoal que é impresso na confusão e conduta da personagem principal. Tanto que, spoiler, a sua obsessão pela traição do pai, chegando a espiar várias vezes a transa dele com a amante, nos deixa alheio por um tempo para o fato de que a separação está se consumando não por isso, atitude já aceita pelo casal, mas porque a mãe também traiu e está decida abandonar o lar.

Por fim, só queria reconhecer que pensando na trajetória de Heitor Dhália, pensando em Nina, que não é uma surpresa, mas que reconheço como um bom primeiro filme, e O Cheiro do Ralo, que me mostra uma maturidade artística imensa, ao final de À Deriva fico com a sensação de que temos nele um cineasta pronto, não tateante no que quer e no que consegue realizar, que domina as escolhas, que sabe como serão os cenários a partir de uma rememoração afetiva. Esperarei pelo próximo e 'crítica-cabeça' dizer que "Dhalia queria ter feito um ensaio de Laura Neiva para a Capricho, e não um filme" ou que "Ele faz o mar parecer de água doce, pois só filma o que já foi filtrado" é um pouco demais, não?

Vulnerável

Perigoso.

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

Dissertando 2

Uma das qualidades mais notáveis do capitalismo, qualidade que se confunde com essência e crescimento, é sua capacidade de se reinventar rapidamente diante de qualquer tendência opositora, assumindo uma versatilidade sagaz e fluída que age em duas frentes. A primeira toma como ponto de partida a conjunção entre ascetismo no trabalho e consumo hedonista, no sentido de moldar seus indivíduos numa vivência baseada na renovável promessa de liberdade – o que, na busca nunca saciada por bens, reforça a sensação na qual passamos a nos distinguir como 'ser' a partir do que podemos 'ter' (CANCLINI: 1997, p. 15). Já a segunda segue na direção do se deixar moldar estrategicamente, confabulando uma espécie de pseudo-autocritica, que ameniza sua constituição enquanto sistema dominante até esboçar um simulacro de negação própria.

Apesar de supostamente antagônicas, ambas as frentes só se fazem funcionais se lançadas de maneira simbiótica, afinal, decifrando o “hieroglifo social” (MARX: 2006, p. 96), percebemos que a negação se firma como uma negação domesticada, que acolhe as insatisfações – e finge satisfazê-las – afim de neutralizá-las. Trata-se de um modus operandis tão complexo que consegue confundir estatutos aparentemente contrários: o da absorção enquanto recurso capital e o da mudança real no âmago sociocultural. É por meio desta máscara que se confunde com rosto que as diferenças são exibidas “livres de tudo aquilo que as impregna de conflitividade” (BARBERO, J. M. : P. 250), que a culpa burguesa esparrama assistencialismo ineficaz, que transgressões simples são permitidas fazendo com que a inépcia humana se passe por transformação.

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

Dissertando

Os cineclubes se ergueram na história do cinema como símbolo emblemático do princípio, de fundo heurístico, que defende o simples ato de assistir filmes como o melhor caminho de apreender e vivenciar a experiência do audiovisual: o se entregar diante da tela deixa o seu lado banal para assumir uma dimensão ritual. Assim sendo, esta posição primeira envolve uma série de outras derivadas na composição política de um campo cinéfilo consistente. Temos num microcosmo específico sem fins lucrativos, a partilha e busca do conhecimento de todos os espectadores para com todos; uma socialização de imaginários e mistura de referências que se distancia da hierarquização comum à pedagogia clássica – algo que se concretiza através da gênese curatorial das sessões e do diálogo exercido no debate que as sucede. A participação sistemática leva-nos inevitavelmente a uma reconstrução do olhar, a um refinamento da oratória e a um alargamento da razão, num clima de consonância e dissonância, que nos coloca diante de distintos pontos de vistas para com projetos estéticos dos mais diversos.

Portanto, o motivo de se empenhar na construção de uma sessão autônoma e de refletir sobre os caminhos alternativos para distribuição de filmes pressupõe uma inquietação com a realidade – inquietação com a dominância de modelos em substituição da coexistência – o que termina por se exprimir na consciência de que as exibições cineclubistas exaltem um caráter excepcional. Seja porque as obras não foram lançadas comercialmente no país, seja porque justamente são nacionais e não encontraram praça para circular, seja porque a cidade onde a iniciativa ocorre não possui um cinema sequer . A difusão de singularidades como norte a ser perseguido nos desperta para a importância de re-entrelaçar (e/ou estabelecer) o longo trajeto de codificação e decodificação , no sentido proposto por Stuart Hall (2003), através de circuitos subalternos de bens culturais.

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

Clipe



Tô viciado.

terça-feira, 18 de agosto de 2009

Lista de Mudanças - 2004

Preciso cortar o cabelo e criar o costume de cortá-lo em intervalos de tempo menores; preciso fazer a barba ou apenas aprender a apará-la o bastante quanto quero, o bastante quanto tento e nunca consigo – não nego o gosto do ar ralo de meus pêlos, dessa tal mistura de inocência e sujeira bem vestida em minha face. Preciso pegar a minha carteira de reservista do exército o quão antes puder, fazer um novo passe fácil o quão antes puder e passar menos horas na internet sem fazer absolutamente nada. Preciso ir num dentista, num dermatologista, num endocrinologista. Preciso me matricular na academia e tentar manter o ritmo por alguns meses – algumas semanas, alguns dias, alguns números. Preciso engordar só um pouquinho e diminuir a masturbação intensiva; preciso abandonar a neurose da balança e ao menos fingir vigor no decorrer de meus dias.

Preciso ler mais e mais e ainda mais rápido. Preciso comprar (ou ganhar =P) uma gaita (e/ou uma flauta), aprender a tocá-las e tentar não desistir em uma semana – afinal quem nunca quis sair pululando no meio da grama abraçado aos seus próprios chiados? Preciso ver alguns filmes para a cadeira de cinema, comandada pela suposta noiva de Tarantino e continuar a ver outros filmes que vejo só para mim. Preciso ter prontas sobre minhas mãos antes do Natal, as camisas de ‘Lain’ e o sorriso irônico de Jim Morrison. Preciso ir à feirinha da Bom Jesus e espero realmente que os trapezistas de linhas ainda estejam presos no pequeno varal. Preciso deixar de ser refém do que escrevo, do que sonho nas noites insônes e do que penso sem ninguém saber. Preciso não me preocupar tanto com o que eu bebo, com o que fumo ou com o que beijo. E preciso mandar mais pessoas a merda, d-e-l-i-c-i-o-s-a-m-e-n-t-e.

Preciso prestar mais atenção nas aulas da universidade, tentar ser um pouco mais responsável e me dedicar ao espanhol – e não estou decidido se estou à procura de um estágio. Preciso estimular meu charme ainda que não saiba bem qual seja – talvez o melhor caminho seja mesmo descobri-lo. Talvez deixe pra mais tarde. Preciso comer mais frutas pela manhã e pela noite, tomar mais água o dia inteiro e dormir bem menos horas do que o habitual. Seria uma boa se pudéssemos adiar a preguiça. Preciso variar os meus dias, me libertar de uns típicos estigmas e colocar os sempre velhos discos novos para tocar. Na verdade, eu preciso pegar uns ônibus errados de vez em quando e me perder achando tudo muito lindo. Talvez eu precise apenas dos sorrisos não falsos e dos abraços mais fortes. Preciso das pessoas, das árvores que sempre estiveram por lá e do clima de interior no coração da cidade. Preciso das histórias bonitas e preciso começar. Realmente, pedras são ótimas.

(escrito em setembro de 2004)

Engajamento Ltda

E o que dizer da ONG do bem que abriu uma loja e a batizou de 'Ética'?

(escrito em 7 de novembro de 2005)

Automatizando

"Gerência Técnica, Bom dia"

Quando você começa a atender o telefone da sua própria casa assim, pode ter certeza que chegou o momento de trocar de estágio.

(escrito em 17 de novembro de 2005)

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

um gravador de sonhos,
estilingue de pensamentos,
chá de memória.

(escrito em 22 de setembro de 2005)

Recorrência

- Você tem um calendário aí na carteira?

- Mas para que você precisa de um calendário se todos os seus dias são iguais?

(escrito em 20 de outubro de 2005)

terça-feira, 21 de julho de 2009

Procrastinação

"De uma forma geral, pode-se presumir, na pseudo-atividade, uma necessidade represada de mudançass nas relações fossilizadas. Pseudo-atividade é espontaneidade mal orientada. Mal orientada, mas não por acaso, e sim porque as pessoas pressentem surdamente quão difícil seria para elas mudar o que pesa sobre seus ombros. Preferem-deixar-se desviar para atividades aparentes, ilusórias, para satisfações compensatórias institucionalizadas, a tomar consciência de quão obstruída está hoje tal possibilidade. Pseudo-atividades são ficções e paródias daquela produtividade que a sociedade, por um lado, reclama incessantemente e, por outro, refreia e não quer muito nos indivíduos. Tempo livre produtivo só seria possível para pessoas emancipadas, não para aquelas que, sob a heteronomia, tornaram-se heterônomas também para si próprias"


Theodor Adorno.
Tempo Livre

Oswald, meu caro

Amor não é Humor.
É Toxoplasmose.

(escrito em algum passado sem data)

editando meu profile do orkut

programas de tv:

hmmm... seriados brasileiros, americanos, mexicanos e hindus. Todos completamente idiotas. Animes tibetanos ou sauditas, ainda que os da Ilha de Galápagos tenham me surpreendido ultimamente. Atrizes expressivas ótimas, sabe? Me encanto também com os programas pseudocults produzidos na Nicarágua, na Etiópia e na Coréia do Norte pós testes atômicos. São de um complexidade digamos francesa. Amo os programas de auditório da Nova Zelândia, o Reality Show com pessoas anencefalas que fizeram transplante de face entre si e o Animal Planet falando diretamente de Marte. \o/

Adoro tooodo esse tipo de coisa que passa na tv.

¬¬

(escrito em 12 de dezembro de 2005)

segunda-feira, 20 de julho de 2009

Fingimentos

O perigo de escrever é escrever o que se sente e o que não se sente e confundir uma coisa com a outra no meio do caminho, fazendo de ambas projeções, meias verdades sentimentais. Trata-se de uma zelig faca de dois gumes diante dos ensejos e vicissitudes de uma mente pueril. Fernando Pessoa já dizia isso de uma forma bem mais poética, mas nem poderia ser de outra maneira, afinal, ele é o poeta, enquanto que nós - e meio mundo precisa de dar conta disso -, nós só conversamos potoca.

Treinamento

Há pouco mais de uma semana, acordei com o rosto molhado e os dedos dos pés doloridos, algo que não me acontecia há vários anos, desde pirralha pra ser sincero, quando sonhei que estava perdido numa mina cheia de placas. Eu andava e espirrava e em cada uma das placas tinha escrito o nome de uma profissão. Depois de longos passeios tomado pela claustrofobia dos corredores estreitos e diante do desmoronamento lógico que me esperava - super na linha 'A Montanha dos Sete Abutres', do Billy Wilder - eis que terminava encontrando uma derradeira maldita placa e no desespero, antes de lê-la, decidia por ela. Nem paleontólogo, nem médico, nem astronauta. Pois é, paleontólogo era a primeira opção na época. 'Assassino' era o que tinha escrito. Acordei com o rosto molhado e os dedos dos pés doloridos. Nem preciso dizer que corri direto pra cama da minha mãe. Acontece que nem o sonho de criança, nem o sonho da semana passada se comparam com uma história que escutei no treinamento do Periódicos Capes. Lá estava eu só querendo saber como fazer a senha para ter acesso gratuito e irrestrito nas mais diversas revistas internacionais, acesso de casa, e não da universidade, quando finalmente a mulher, meio confusa consigo mesma e pouco íntima da interface, explicou mais ou menos o caminho. Ok, entendido, fui pro gmail, orkut, twitter, inutilidade, inutilidade, irrelevância, irrelevância, daí chegaram duas outras pessoas para o treinamento e a instrutora liberou os que já tinham pego o espírito da coisa. Um senhor ao fundo totalmente alheio a tudo que estava sendo dito permaneceu sentado. Eu estava no computador diametralmente oposto ao dele. Foi então que a instrutora resolveu começar com a nova turma pela senha e não pelos blábláblá de ensinar a usar um sistema de busca. Alow, conhecemos o google, pode pular essa parte. Enfim, ela chamou o senhor "professor de biologia" pra se aproximar. Não vou negar que o achei estranho, não só pelos olhos tristes, pelos cabelos desgrenhados, pela pochete feiosa, pela roupa-fiz-figuração-no-elo-perdido-e-não-saí-do-personagem', mas especialmente pelo sotaque estranhíssimo, pois não conseguia identificar de onde vinha, sequer se era nacional ou internacional, ou mesmo se era sotaque de fato ou um problema de dicção. Ok, o senhor era um verdadeiro e legítimo jungle oldman: o que não é problema pra mim, pois apesar de odiar a natureza, as aranhas e os insetos, sou amigo de Mário, rapaz bonito que passou um bom tempo desencontrado no meio da Amazônia.

Voltando ao que nos interessa, a instrutora pediu ao professor que se aproximasse e avisou que para fazer a senha no portal de periódicos era preciso ter o SIGA ativo. Todos enquanto alunos e professores da universidade obviamente tinham SIGA. Explicando bem rápido, além de dar muita dor de cabeça e gerar mil problemas quando você mais precisa, o SIGA é o sistema virtual da UFPE onde todos os alunos fazem a matrícula, conferem seus históricos escolares, notas, grades curriculares, horários; onde também os professores colocam os resultados, os nomes das disciplinas, os horários. Sacaram mais ou menos? Pois é, é isso. Daí o professor falou: "eu não tenho siga". Nessa hora meu ouvido ampliou para além de minha orelha (sem piadas por favor), porque é incompatível que um professor da UFPE seja professor de fato e não tenha SIGA. Daí a instrutora bem boazinha e calminha, boazinha e calminha como geralmente são todas as bibliotecárias, falou que ele precisava falar com o pessoal do departamento pra adiantarem o SIGA dele. Ninguém queria saber mais do treinamento, havia algo de mais importante ali. Daí o professor começou um relato constrangido, afirmando que os professores companheiros de departamento não gostavam dele, que muitos sequer falavam com ele. O constrangimento era dele e a fraqueza do constrangimento nossa. Continuou dizendo que não era bom com computador, internet, que o chefe do departamento simplesmente dava o papel das disciplinas do semestre e, ao final, a secretária pegava o papel com as notas de volta. Tudo sem troca de palavras. Sério, eu fiquei meio emocionado, inclusive por culpa diante de meu olhar primeiro, apesar de que outsider, outsider, essa história pessoal já era demais. Ai de quem pensa na universidade como o templo dos bons modos e da ilustração. A instrutora, claramente passada e não só ela, sem saber se voltava pro treinamento, se enfiava a cabeça no monitor, disse desorientada que ele podia ir na biblioteca, só que logo depois se deu conta que na biblioteca ele nunca que ia fazer o SIGA. De fato, isso só seria resolvido no departamento. Ele achou que ela não tinha entendido e repetiu a história, enfatizando que não saberia fazer isso sozinho, que não era bom de computador, que não tinha computador em casa. A mulher querendo quebrar o gelo falou que também não tinha, que usava o do sobrinho. Foi a deixa: ele começou a ficar meio nervoso e disse que não podia pedir a filha até porque a filha tinha asco dele. Eu fiquei meio em estado de choque. Todos na sala. Depois do silêncio sepulcral, ele soltou a máxima do dia: "Ninguém fala comigo lá. É que eu sou leproso. Quando se tem lepra, é foda. Eu tenho um fedor que faz com que as pessoas não se aproximem de mim. Eu só posso feder muito. Muito mesmo. Desde que eu cheguei nessa cidade há vinte anos, eu nao paro de feder". Não se enganem, REALMENTE o fedor era uma metáfora. A mulher sem saber o que fazer mandou ele procurar o reitor, só o reitor poderia resolver o caso. Momento climãão instaurado e eu como um bom covarde, antes que ele continuasse a história, fugi da sala pensando como meu dia-a-dia só faz me confirmar que o mundo é um grande lixão cheio de urubus. Voltei pra casa péssimo. Só melhorou um pouco quando passei no laguinho e vi duas beldades tirando a camisa e fazendo contorcionismo na grama. Ainda bem que consigo curar tristeza profunda com um circo de corpos quaisquer.

sábado, 18 de julho de 2009

Mudando

Desde 2005 tenho o meu celular atual, isso quer dizer que fazem exatamente quatro anos que uso o mesmo aparelho e que, de fato, ele já está todo fudido, mas também significa dizer que acompanhei todo processo, dele deixar de ser modernoso-metidinho porque tinha câmera pra se tornar desprezível-atrasadinho por só ter câmera. Devo admitir que criei uma espécie de laço afetivo, especialmente por conta da tal câmera, único modo de registro da minha vida ao longo de todos esses anos e por conta do gravador de voz, que sozinho captou duas ou três das conversas mais impagáveis da vida. Lellye que o diga. Meu celular tinha um timing autônomo. Sem contar que desde que o comprei não aconteceu de eu ser assaltado, o que merece uma menção, afinal de contas, moramos em Recife, onde ser assaltado é, para as criaturas da noite, tão comum quanto comprar pão na esquina. Só em 2004 tive três aparelhos, um dos quais não durou um mês da compra ao furto. Furto ridículo, por sinal, dentro do Chevrollet Hall. Bem que eu mereci por ter pago tão caro por um show tão bosta e que passei maior parte do tempo num orelhão ligando pra 'oi'. Acontece que os tempos mudaram, ganhei um celular novo super foda, mil funções, que obviamente nem sei mexer direito. Admito: estou com dificuldade de me livrar do antigo e sinto que vou ser assaltado logo logo, sinto o peso de estar andando com algo de valor. Isso funciona como um obstáculo ao meu espírito de flanar na cidade. É como se fosse a volta da típica paranóia recifense que todos nós deveríamos superar. Saco. Só gosto de medo quando é fobia. Então, pra marcar a nostalgia dos tempos sem medo, vou fazer uns posts com algumas das últimas fotos que tirei no antigo celular:







segunda-feira, 13 de julho de 2009

Descobrindo o mundo

Acho que eu descobri o que era o capitalismo, quando, ainda bem pequeno, me dei conta que o Hiper Bompreço era a junção de 'hiper', 'bom' e 'preço' e que era mentira.

sexta-feira, 10 de julho de 2009

Curta?



Só lembrei de Mufasa.

(dica de mário)

quinta-feira, 9 de julho de 2009

Be Kind Rewind

Às vezes desejo secretamente que a vida devia se configurar como um DVD, de forma que, quando completássemos dezoito anos, ganhássemos como prova da idade um controle remoto com lindos botões rewind and forward, nos dando a abertura de transitar por todos os nossos anos, rememorando a melhor trepa e nos arriscando a descobrir o nosso leito de morte. Talvez o excesso de viagens para frente e para trás, além de nos causar o enjôo típico da incerteza, além de nos confundir as emoções e de nos tornar existencialmente atemporais, terminaria se solidificando enquanto um longo tédio rotineiro e firmando permanentemente a resolução do porquê vivemos no, e devemos ao, presente. Não me parece ser por acaso. Ainda assim, fico com um sorriso distante só de pensar na possibilidade de acelerar a dor – sentindo-a mais intensamente numa durabilidade menor; na praticidade de mudar o ângulo de visão, brincar com o zoom – entendendo os pontos-de-vista que nos escapam, os contextos que não nos pertencem, as distâncias e aproximações. Parece um vício dos bons: pensem no prazer quadro a quadro – descobrindo o gozo de cada segundo, resgatando um sentido a cada gesto; na vontade sincera e justa de pular capítulos inteiros, pausar momentos de dúvida extrema, viver o mesmo frio na espinha uma centena de vezes. A velhice me parece ser a superação deste desejo: desejo de quem carrega uma juventude amada que começa a pesar e desejo de quem olha para frente sem olhos de farol. Por ora, na encruzilhada dos vinte e poucos anos, bem que a vida poderia ser cheia de funções técnico-afetivas, nem que fosse uma breve alienação de nós a nós mesmos, de nós em nós mesmos, afinal, a única função de DVD que nos resta enquanto seres humanos donos de nosso destino e condicionados por nossa realidade é a do botão eject. Nada mais. Ao menos, os anos têm passado, vinte quatro deles, e o único botão do controle tem se mantido intacto. Deve ser o sinal de alguma fé na humanidade. Quem diria.

domingo, 5 de julho de 2009

=~~

domingo, 21 de junho de 2009

Buscas

ui Hermano.

sexta-feira, 19 de junho de 2009

Béla Tarr no Cineclube Dissenso!

Caros,

neste sábado (20), às 14h, daremos continuidade as atividades do Cineclube Dissenso em parceria com a Fundação Joaquim Nabuco (Fundaj). Para quem ainda não teve a oportunidade de participar de uma das sessões anteriores, a ideia é sempre apresentar obras raras, de difícil acesso e ausente do circuito exibidor, criando mais uma opção aos amantes do cinema na cidade. Contemplaremos dessa vez uma das peças-chave do cinema europeu contemporâneo: o cineasta húngaro Béla Tarr. Conhecido pela lendária obra-prima de sete horas e meia Satantango (1994), Béla Tarr tem nos apresentado nas últimas décadas um universo cinematográfico extremamente pessoal e desafiador. A sessão contará com a exibição de um de seus filmes mais recentes, As Harmonias de Werckmeister (2000), um misterioso retrato de uma pequena cidade do interior da Hungria transformada com a chegada de uma baleia gigante empalhada.

Dissenso - O Cineclube Dissenso surgiu a partir da criação do Blog Dissenso (www.dissenso.wordpress.com), parte do projeto de conclusão de curso de um de seus integrantes. A intenção era discutir a crítica cinematográfica e estimular um ambiente de debate cinéfilo, permeado pela coexistência de distintos discursos. O que começou como reuniões despretensiosas entre cinéfilos, tomou proporções maiores e se firmou como um novo espaço cineclubista entre estudantes de diversos cursos da UFPE.

A única premissa compartilhada internamente era a de que as obras escolhidas tivessem algum caráter provocativo, não fossem facilmente encontradas em qualquer prateleira de locadora e, de preferência, não possuíssem comercialização oficial no país. Formou-se assim o cineclube, que em quase um ano de existência assumiu uma clara preferência por projetos estéticos incomuns e diversos, em ciclos marcados pelas diferentes referências e repertórios cinematográficos de seus integrantes, em uma curadoria colaborativa que agrega vozes e olhares dissonantes.

SERVIÇO:

As Harmonias de Werckmeister (Béla Tarr, 2000, Hungria)

Sábado, 20 de junho, às 14h

Cinema da Fundação

Entrada Franca

Mais informações:

Rodrigo Almeida - 91684304

terça-feira, 16 de junho de 2009

Jogatina Sentimental

Nunca podemos recuperar totalmente o que foi esquecido. E talvez seja bom assim. O choque do resgate do passado seria tão destrutivo que, no exato momento, forçosamente deixaríamos de compreender nossa saudade. Mas é por isso que a compreendemos, e tanto melhor, quanto mais profundo jaz em nós o esquecido.

Walter Benjamin, Rua de Mão Única, P. 104/105

segunda-feira, 15 de junho de 2009

Troquem as cornetas!

Alguém podia avisar aos torcedores lá da África do Sul que esse barulho de abelha zunindo nos jogos da Copa das Confederações é insuportável?

Agradecido.

sexta-feira, 12 de junho de 2009

crises antecipadas de meia-idade

Tenho medo que envelhecer seja a substituição do deslumbramento pelo conhecimento.

Contando

Eu sempre achei que a melhor maneira de medir o amor fosse a saudade e que a saudade vinha da simples vontade de compartilhar uma faísca de mundo com alguém. Às vezes vontade incontrolável, dependência assumida, simbiose desconcertante. É como se a vivência só se tornasse completa, por mais extraordinário que fosse o momento, ao contarmos, quase como revivendo, uma bela historia em um ouvido amigo. Só que quando a saudade acaba, o amor acaba, as histórias somem, novos ouvidos se erguem no ar e, depois de um tempo, começa tudo de novo. O melhor é que podemos voltar a contar as velhas histórias como novas. Não quero falar, por ora, das mágoas, um dia elas chegam, mas não agora e vou acabar o post pela metade ou isso pode ser musicado um dia e parar num voz e violão por aí.

quinta-feira, 11 de junho de 2009

Mais dissenso!


Seguindo a parceria com a Fundação Joaquim Nabuco (Fundaj), o Cineclube Dissenso realiza neste sábado (13), às 14h, mais uma sessão de filmes seguida por debate aberto ao público. Com entrada gratuita, a sessão contará com a exibição dos filmes Ako (1965), média-metragem representante do que se convencionou chamar de nouvelle vague japonesa e Otoshiana (1962), produções de Hiroshi Teshigahara (1927-2001). Otoshiana marca a trajetória cinematográfica de Teshigahara por ser sua primeira parceria firmada com o escritor/roteirista Kobo Abe, com quem viria a desenvolver A Mulher das Dunas, filme já exibido no Cineclube e considerado a obra-prima do diretor japonês.

A ideia, que é sempre apresentar obras raras, de difícil acesso e ausente do circuito exibidor, contempla dessa vez esse mestre do cinema oriental ainda pouco conhecido por aqui. Teshigahara se distingue na cinematografia japonesa como uma voz que soube, como poucas, aliar suas intenções estéticas com uma preocupação social que refletisse as condições da população de seu país, importando-se com a manutenção da identidade individual.

Dissenso - O Cineclube Dissenso surge a partir da criação do Blog Dissenso (www.dissenso.wordpress.com), parte do projeto de conclusão de curso de um de seus integrantes. A intenção era discutir a crítica cinematográfica e estimular um ambiente de debate cinéfilo, permeado pela coexistência de distintos discursos. O que começou como reuniões despretensiosas entre cinéfilos, tomou proporções maiores e se firmou como um novo espaço cineclubista entre estudantes de diversos cursos da UFPE.

A única premissa compartilhada internamente era a de que as obras escolhidas tivessem algum caráter provocativo, não fossem facilmente encontradas em qualquer prateleira de locadora e, de preferência, não possuíssem comercialização oficial no país. Formou-se assim o cineclube, que em quase um ano de existência assumiu uma clara preferência por projetos estéticos incomuns e diversos, em ciclos marcados pelas diferentes referências e repertórios cinematográficos de seus integrantes, em uma curadoria colaborativa que agrega vozes e olhares dissonantes.

SERVIÇO:

Ako (Hiroshi Teshigahara, 1965, Japão)

Otoshiana (Hiroshi Teshigahara, 1962, Japão)

Sábado, 13 de junho, às 14h

Cinema da Fundação

Entrada Franca

Mais informações:

Rodrigo Almeida

9168-4304

terça-feira, 9 de junho de 2009

Ovelhas Negras

É sempre bom admitir nossos próprios clichês. A gente tenta desviar uma, duas, quinze vezes, mas nem sempre dá para fugir deles apenas na mandinga. Os clichês são espertos e grudam - quase como óleo quente saído de uma panela de batata frita. Daí chega uma hora que é melhor sentar, relaxar o pescoço endurecido e colocá-los, aos pares, em cima da mesa. É incrível como sempre surto nos sonhos quando resolvo dormir lendo Caio Fernando Abreu. Depois acordo, sinto que se ele não existisse, eu poderia ter alguma relevância e curar metade dos meus problemas estima. Não fico triste. Pelo contrário. Ele me enche de vida noturna como se minhas vísceras pulsassem, algo parecido com o que me aconteceu quando estava lendo Secreções, excreções e desatinos, do Rubem Fonseca. Minhas noites tranquilas na cama mais pareciam noitadas loucas na Augusta.

Festas

A pior parte de estar em uma festa onde você é o eixo que une os diferentes grupos, não vou falar do lado bom, não quero me perder no inumerável, é que quando morga a tal festa e chega a hora de decidir o destino seguinte, cada um dos grupos defende sua sugestão a ferro e fogo, usa de toda chantagem emocional cabível, lembra daquelas promessas de maio e o eixo, ou você, se sente como um corpo esquartejado que não foi cortado em pedaços suficientemente pequenos.

Dessa maneira os canos terminam entupidos.

quarta-feira, 3 de junho de 2009

Eu quero mais é release!


Neste sábado (06), às 14h, tem início as atividades do Cineclube Dissenso em parceria com a Fundação Joaquim Nabuco (Fundaj). As sessões, com entrada gratuita, serão realizadas semanalmente no Cinema da Fundação e seguidas por debate aberto ao público. A ideia é sempre apresentar obras raras, de difícil acesso e ausente do circuito exibidor, criando mais uma opção aos amantes do cinema na cidade.

Em sua primeira semana, serão exibidos o curta Esse Filme Deve Ser Visto no Cinema, do pernambucano Chico Lacerda, e Benny´s Video, do diretor austríaco Michael Haneke, ganhador da Palma de Ouro do Festival de Cannes esse ano e se tratando de Haneke é melhor não cairmos na sinopse para não estragar a surpresa.

Dissenso - O Cineclube Dissenso surge a partir da criação do Blog Dissenso (www.dissenso.wordpress.com), parte do projeto de conclusão de curso de um de seus integrantes. A intenção era discutir a crítica cinematográfica e estimular um ambiente de debate cinéfilo, permeado pela coexistência de distintos discursos. O que começou como reuniões despretensiosas entre cinéfilos, tomou proporções maiores e se firmou como um novo espaço cineclubista entre estudantes de diversos cursos da UFPE.

A única premissa compartilhada internamente era a de que as obras escolhidas tivessem algum caráter provocativo, não fossem facilmente encontradas em qualquer prateleira de locadora e, de preferência, não possuíssem comercialização oficial no país. Formou-se assim o cineclube, que em quase um ano de existência assumiu uma clara preferência por projetos estéticos incomuns e diversos, em ciclos marcados pelas diferentes referências e repertórios cinematográficos de seus integrantes, em uma curadoria colaborativa que agrega vozes e olhares dissonantes.

SERVIÇO:

Benny´s Video (Michael Haneke, 1992, Áustria)

Este Filme Tem Que Ser Visto no Cinema (Chico Lacerda, 2009, Brasil)

Sábado, 06 de junho, às 14h

Cinema da Fundação

Entrada Franca


Mais informações:

Rodrigo Almeida - 9168-4304
dissenso@gmail.com

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O único problema de amigos de mundos diferentes namorarem é que sempre um amigo termina devorando o outro na relação de amizade com você, de forma que, no final das contas, só resta um amigo pra contar história. É inevitável, fazer o que?

segunda-feira, 1 de junho de 2009

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E falando em bancos, não a toa estas empresas são sempre as primeiras a associarem suas ações e sua marca com o discurso emergencial que domina e sensacionaliza os corações e mentes ao redor do planeta. Pode notar como todos vão nessa mesma linha, como isso acontece em nível transnacional e como tem o intuito de colocar o banco em consonância com as supostas demandas urgentes da humanidade. Se o assunto que domina é o aquecimento global, o banco é o banco que protege o planeta, que a cada conta aberta, planta uma árvore e que luta mais que o greenpeace pela proteção das baleias. Se o assunto é a crise econômica, aí se torna o banco que vai dar sustentabilidade financeira ao longo da sua vida, o banco que tem planejamento, o banco que quando tudo - inclusive os bancos - falirem, vai continuar ali do seu lado, firme e forte segurando a sua mão.

Pior que eu admiro essa perspicácia de terceira.

sábado, 30 de maio de 2009

.

Eu ando me chocando muito fácil nessa vida, mas propagandas de banco com crianças têm me chocado em especial.

quinta-feira, 28 de maio de 2009

QUE?

Como assim demora UM ANO E MEIO para o diploma de formado ficar pronto depois que você dá entrada com todos os trezentos e quarenta e dois milhões de documentos?

Isso é culpa da UFPE, do MEC, MINHA, de QUEM?

Ainda bem que a mulher disse que se o pedido tivesse caráter de urgência (?), bastava acrescentar uma justificativa "boa" aos documentos, que se fosse aprovada pela comissão, o diploma sairia entre dois e três meses "no máximo".
Ok, aceito sugestões.

terça-feira, 26 de maio de 2009

=D

Nada como estar usando um computador da lan house quando chega o homem da celpe para cortar a luz.

Revista Quem

Eu sempre achei que ia ver o Galvão Bueno ficar gagá na frente das câmeras ao ponto do constragimento se tornar insustentável (ok, já é), resultando na retirada dele do ar diretamente para o retiro dos artistas. É que adoro ver vídeos do youtube ao vivo na TV. Mas eita, o retiro dos artistas é só pra artistas (sic) e figurantes né? Pois então, não sei para onde a Rede Globo manda os comentaristas, narradores, pregos e afins quando eles não possuem mais utilidade comercial e nem o seu zé da pinga ali da esquina quer consumi-los. Como tirar de cena a inutilidade de pele viva cobrindo os ossos? E não sou eu quem diz: envelhecer cercado de câmeras é realmente cruel, não duvidem. Acho inclusive que tem muito pretenso ator desses secundários cuja a vida não é outra coisa senão segurar o cu na mão todos os dias temendo o esquecimento. Vejam só pelo que o povo se passa. Tem programas especialmente criados só para os futuros residentes da casa dos artistas. Às vezes eu tenho pena. Não hoje. Para falar a verdade, eu ainda espero presenciar momentos em que o Galvão se confirme como senil, e falo isso para além dos comentários senis dele de sempre, mas não podia imaginar que esse constrangimento profético iria acontecer primeiro com o Sílvio Santos. Logo o Sílvio. Tudo bem que ele sempre humilhou sua platéia, seus convidados, armou o circo jogando dinheiro e de certa forma eu admirava o jogo de manipulação em que ele envolvia suas presas, mas convenhamos que ele perdeu o controle e eu perdi a aposta. Achava que seria o Galvão. E a Hebe não conta, porque se fosse pra internar já era pra ter feito isso há muito tempo.

Eita, tem a Suzana Vieira que, segundo a própria, não envelhece.

Surpresas da TV Brasil - 2

Superstição, do Alan Sieber, iria ou irá fazer parte de um longa chamado "Odeio o Pereio" ou "Odeio o Paulo César Pereio", onde diversas pessoas, de diversos campos diferentes seriam convidadas só para falar mal do famoso ator diante de uma câmera. Segundo o diretor, o material é bem vasto, apesar de que as pessoas que mais odeiam o Pereio tenham se recusado a participar do projeto, porque acreditam que mesmo falando mal, a obra terminaria se transformando em uma homenagem. E homenagem ao Pereio, jamais.


Surpresas da TV Brasil - 1


A TV Brasil tem me surpreendido para o bem. Primeiro teve um dia que eu tava lá de bobeira no sofá de casa e de repente passou "O menino da calça branca", de 1961, o primeiro curta do Sérgio Ricardo, que integra, junto a três outros curtas, um projeto chamado "Quatro contra o mundo". Não vi os outros e vai ser difícil vê-los - nunca tinha sequer escutado falar - mas sei que esse Sérgio Ricardo, que foi homenageado pelo Festival do Filme Livre desse ano, é mais conhecido por sua música que por seu trabalho no cinema, especialmente porque ele foi responsável pela trilha sonora do cânone "Deus e o Diabo na Terra do Sol", do Glauber Rocha. O Sérgio Ricardo é um cara cheio do préstigio e estou aqui só pra aumentar um pouco esse prestígio, porque desde Muro não ficava tão abismado com um curta - ambos me tocaram da forma profunda o suficiente para não saírem da minha cabeça por muito tempo ou talvez pra sempre. Sem contar que vale dizer que costumo retomar momentaneamente a minha fé na humanidade quando fico emocionado com algo sincero que passa na televisão e não é a matéria de transplante de órgãos do Fantástico ou alguma propaganda fofa e cretina da coca cola. Depois essa sensação passa e eu volto a ser o velho pessimista de sempre. Sobre o curta, não posso ignorar que a fotografia em preto e branco é linda, talvez uma das mais bonitas que eu tenha visto e não a toa: a maioria dos curtas brasileiros do início da década de 60, Aruanda, por exemplo, possuem uma fotografia de uma luz muito própria, como se saída do hipersaturado Rio 40 Graus em direção ao suposto naturalismo controlado do Cinema Novo. Não dá pra saber direito se o punctum é justamente o controle ou descontrole. Por sinal, o diretor de fotografia, Dib Lufti - irmão do Sérgio Ricardo, viveu esse processo muito bem, trabalhou com o Eduardo Coutinho no início da carreira do documentarista, foi operador de câmera em Terra em Transe, trabalhou em inúmeros filmes do Arnaldo Jabor, Nelson Pereira dos Santos, entre outros, apesar de hoje participar de iniciativas toscas de pretensão, direção e interpretação duvidáveis como é Juventude, do Domingos de Oliveira. Todo mundo envelhece um dia e não estou falando dos anos concretos. Manoel de Oliveira, aquele jovem, que o diga.

Mas voltando rapidamente ao "Menino da Calça Branca", além da fotografia, fiquei especialmente comovido com a espontaneidade do garoto, cujas andanças, expressões e brincadeiras nas ruas, acompanhada e registrada por uma segunda andança, a da câmera, nem sempre na mesma direção, me transportou completamente a um imaginário da infância e não necessariamente da minha infância. Senti o onírico, mas não o nostálgico - que, na verdade, seria um nostálgico inventado, daqueles quando nós, na linha jovens de menos de 30 anos, buscamos um 1968 no baú de lembranças. Pois é, nesse caso não rolou identificação: nem de fato, nem inventada. Talvez justamente esse distanciamento entre a minha infância e a infância do garoto tenha facilitado e inocentado minha entrada na diegese proposta, sem que eu, interferisse com a minha própria diegese. Sem contar que ver o Ziraldo de surpresa na tela me encheu de uma alegria inexplicável. É isso aí, inexplicável. Pra não dizer que não falei das sinopses, basicamente a história se foca em um menino do morro que ganha de natal uma calça branca - algo que parecia esperar há tempos - e toma aquele presente como uma transformação imediata em sua vida de menino do morro. Eis que então desce ao asfalto, todo cuidadoso para não se melar e imita o mundo dos adultos de calças brancas: os gestos, a forma de andar, de se portar e estar no mundo. A narrativa é muito simples e fofa - e sei que essas palavras não seriam as ideais - mas a escolha de colocar um final triste funciona muito como o despertar de um sonho por um soco na porta do quarto: a bola bate na lama, a lama bate na calça branca e o menino volta pro morro. Daí pra ficar emotivo é um passo, especialmente pela percepção da influência do Sérgio Ricardo enquanto compositor sobre o Sérgio Ricardo diretor, algo que dita um ritmo onde o visual parece seguir uma direção auditiva. Obviamente esse processo ganha força e se aperfeiçoa através da edição realizada pelo mestre Nelson Pereira dos Santos. Acho que não é clichê dizer que essa sua criação audiovisual - e imagino que as outras também dada sua trajetória - se interliga simbioticamente com a criação musical. Dessa forma, nem preciso dizer que existe a música "o menino da calça branca". O curta recebeu o prêmio 'Berimbau de prata' no I Festival de Cinema da Bahia em 1962. Berimbau de prata, minha gente?

o_O

A Bahia às vezes me mata de vergonha.

Daí terminou o filme e vi na propaganda que na sequência ia passar Serras da Desordem, do Andrea Tonacci, uma das produções brasileiras de maior provocação estética sobre o que é, não é, não é mais, foi e será a linguagem audiovisual, especialmente do documentário. Se não tivesse com tanto sono, topava na boa pela terceira vez.

quarta-feira, 20 de maio de 2009

Destino

Provavelmente vão tirar do ar logo logo como tudo de mais legal nesse mundo do youtube, mas eu achei que essa animação - procurem sobre ela na internet - valia tão a pena que resolvi arriscar. Eu também quis dar as caras por aqui, dizer que não estou morto e registrar que o meu notebook, depois de dezessete dias úteis, continua na assistência técnica. Odeio a Positivo. E sim, a dica do vídeo foi do Osvaldo.


quinta-feira, 14 de maio de 2009

Refilmagem e Continuação

Esqueci de dizer que fui ver Star Trek do J.J. Abrams, bem receoso porque sempre fui mais da turma do Star Wars e tenho ambivalências com Lost, e vi o trailer de Tranformers 2, o trailer de Uma Noite no Museu 2, além do de Exterminador do Futuro não sei quanto - parei no dois, apesar de ter visto o três - e quando cheguei em casa, bem em dúvida se tinha gostado do filme ou se ele só valia por alguns efeitos especiais em algumas cenas específicas, e eis que estava passando American Pie 5. Caralho, fico meio besta como é pastiche pra tudo que é lado. Ok que a balela da maioria dos filmes mega-hiper-super-comerciais continua a mesma das últimas décadas - independente se franquias 'novas', refilmagens ou continuações - mas, sei lá, mudar o título vez ou outra bem que poderia ser um ótimo começo.

Viva Joseph Campbell e os arquétipos universais.